Abertura da Semana relembra trajetória do curso ao longo desses anos. Evento busca promover discussões, reflexões e capacitação para os acadêmicos

Por: Leticia Marquine, Mara Machado e Thalia Zortéa.


Entre os dias 23 e 25 de outubro, o curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) realizou a Semana de Jornalismo 2019 (Semajor), este ano em comemoração aos seus 30 anos de fundação. A programação geral incluiu palestras, oficinas, workshops, mesas redondas, exposições, lançamento de livro e o show de talentos, sob o tema “Desafios editoriais e novos modelos de negócio”.

A abertura oficial ocorreu no dia 23, às 17h, no auditório Marçal de Sousa Tupã e contou com a participação da vice-reitora da UFMS, professora Camila Ítavo, da diretora da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação, professora Vera Penzo, do adido de imprensa do consulado americano, Phill Drewry e do coordenador do Curso de Jornalismo, professor Mario Luiz Fernandes.

Evento em comemoração aos 30 anos de fundação do curso de Jornalismo foi realizado entre os dias 23 e 25 de outubro (Foto: Giovanna Silva)
Evento reuniu professores, acadêmicos, egressos e profissionais da área. (Foto: Giovanna Silva)

Durante a cerimônia, os acadêmicos do curso receberam uma homenagem da Câmara Municipal de Campo Grande pelos prêmios obtidos em 2019, concedidos pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e também por outras instituições, dentre eles, o Prêmio Adelmo Genro Filho criado pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). Na ocasião, a professora Rafaella Peres também apresentou o lançamento do livro “Entre Tempos”, uma edição comemorativa dos 30 anos do curso, elaborado com a participação de profissionais que compõem a estrutura docente do Jornalismo UFMS. 

Jornalismo Local e novos modelos de negócio

A primeira mesa-redonda teve início com a apresentação do jornalista, fundador da Volt Data Lab e mestre em Relações Internacionais pela PUC-SP, Sérgio Spagnuolo. Ele destacou os “desertos” de notícias no país, que correspondem a locais que não possuem veículos de comunicação. Além disso, também enfatizou a influência e impacto imediato da imprensa local na vida das pessoas que vivem em suas localidades.

Para Sérgio Spagnuolo, as tecnologias poderão propiciar uma melhora para o jornalismo, porque podem colaborar para diminuir os processos operacionais entre os jornalistas e promover um destaque maior para a informação que será transmitida.  “Eu acho que o futuro do jornalismo vai ser mais ligado a tecnologia. Tecnologia tem ajudado muito o jornalismo nos últimos anos, seja com capacidade técnica para fazer pauta, para ajudar. Então, cada vez mais a gente vai sair do impresso e vai começar a adotar novas tecnologias, novas e melhores que vão ajudar a criar, tirar essa carga operacional de todos de jornalismo e deixar a gente focado em conteúdo”, ressaltou.

A outra palestrante da mesa, Nina Weingrill –  co-fundadora da Énois, agência de jornalismo na periferia paulistana e da Escola de Jornalismo para jovens produzirem seus próprios conteúdos, comentou sobre a busca pela democratização da comunicação. Ela também explicou como funcionam as discussões de determinados temas para pautas fora dos veículos tradicionais, como é o caso da Énois, que desenvolve trabalhos com o Facebook e com outras empresas que financiam os projetos. Além disso, a jornalista afirmou que não há confusão nas escolhas de pautas, porque eles realizam o trabalho e a as marcas apoiam apenas caso concordem com os valores e ideias que façam sentido para elas.

Além disso, Nina discutiu sobre censura e autocensura por parte dos profissionais que, muitas vezes, se antecipam a uma limitação. “Muitos jornalistas antes de propor, eles já se autocensuram, porque isso não vai passar. Então a pessoa mesmo fala, ‘Eu nem vou me dar o trabalho de propor isso, porque eu sei que não vai rolar’, então vejo que tem mais autocensura do que uma censura de fato imposta, nesses ambientes maiores, tradicionais e nos menores também”, complementou.

Ao serem questionados sobre o que esperam do jornalismo no futuro, Spagnuolo afirmou que deseja um jornalismo mais inclusivo, que tenha uma maior diversidade, nas redações, nos eventos da área. Para Nina Weingrill, a principal questão é sobre a distância que o público tem com o jornalista. “Gostaria para o futuro do jornalismo, que todos os cidadãos, de todas as cidades, conhecessem pessoalmente um jornalista. Falasse ‘eu sei quem é fulano de tal, posso conversar com ele, mandar minhas informações para ele, sei que ele está trocando comigo’, é isso que eu gostaria para o jornalismo do futuro”, destacou.

Spagnuolo também falou sobre o empreendedorismo no Jornalismo e como ele torna-se uma alternativa para quem busca fazer uma cobertura diferente dos veículos tradicionais. “Então acho que o empreendedorismo vem para sanar espaços que não foram cobertos ainda, com novas iniciativas”, disse.

Jornalismo de dados e desinformação

O segundo dia foi marcado pela discussão sobre a crise da desinformação e, novamente, sobre as possibilidades de modelos de negócio no jornalismo, com a participação do editor do projeto Comprova, Sérgio Ludtke e da diretora de redação da revista online AzMina, Helena Bertho.

De acordo com Ludtke, o projeto Comprova é um trabalho colaborativo coordenado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que reúne 24 veículos de informação de diferentes nichos com o objetivo de verificar conteúdos duvidosos gerados pelos usuários durante as eleições presidenciais de 2018. Durante as 12 semanas eleitorais, o projeto teve 146 verificações publicadas e mais de dois milhões de engajamento nas redes sociais nas publicações relacionadas ao Comprova. “A ideia é que o Comprova funcione um pouco como verificador de informação duvidosa, mas que seja também uma lembrança constante de há um movimento em curso de desqualificação da informação”, explicou.

O editor ainda orientou que algumas medidas podem ser implementadas no cotidiano da população para evitar a viralização de conteúdos falsos. “Primeiro é desconfiar de tudo que é encaminhado por WhatsApp, por exemplo, ou por fontes desconhecidas. A pessoa pode fazer a busca de imagem simplesmente ‘jogando’ ela na caixinha de imagens do Google e com vídeo a mesma coisa”. Ludke afirmou que essa preocupação em buscar mais informações sobre o que se lê ou recebe pelas redes sociais deve ser inserida na rotina das pessoas. “Não dá para pedir muito mais para as pessoas, porque elas não estão preparadas para isso. Essa é uma situação muito nova, inclusive para o jornalismo”.

Neste mesmo segmento do jornalismo como promotor do interesse público, por meio da informação, a revista digital Az Mina busca instigar a equidade de gênero. Helena Bertho, apresentou o modelo de negócio elaborado para o veículo e a forma de captação de recursos para construção de narrativas feministas e comprometidas com a defesa dos direitos humanos. “A questão do colaborativo sem grana é que você tem de engajar as pessoas na pauta, elas têm que ter interesse”, comentou.

Segundo a jornalista, a revista teve três posicionamentos após o desenvolvimento do modelo de negócios em 2018, formulado paralelamente ao período das eleições presidenciais brasileiras. Entre eles estão as propostas de parceria e colaboração com outros veículos jornalísticos, a mudança no enfoque das pautas e a promoção de uma linguagem mais aberta para se comunicar com vários perfis de mulheres. “A gente estava muito embrenhada na bolha feminista, falando de assuntos que estavam em pauta no feminismo e que eram extremamente acadêmicos e complexos, que não estavam com a realidade da mulher brasileira”.

Outro desafio enfrentando pelo jornalismo com perspectiva de gênero é o desenvolvimento de pautas com este enfoque de forma transversal. Segundo a diretora de redação, a revista Az Mina encara, em alguns casos, a desqualificação destas narrativas enquanto produtos jornalísticos. “Não é considerado jornalismo, é um jornalismo menor, menos importante”, afirmou. “Mas tem tanto assunto carente de ser coberto com recorte de gênero que o desafio é escolher qual desses assuntos nós vamos cobrir com a nossa minúscula estrutura”.

Ainda, segundo a jornalista, as assimetrias de gênero também estão presentes no exercício da profissão. A pesquisa Mulheres no Jornalismo Brasileiro, elaborada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Gênero e Número, mostra que 70,4 % das jornalistas já receberam cantadas que as deixaram desconfortáveis no exercício da profissão e 64% destas mulheres já sofreram abuso de poder ou autoridade de chefes ou fontes.

Jornalismo e mercado de trabalho

Na sexta-feira, as discussões continuaram com a mesa-redonda “Jornalismo local independente” com o Jornalista da Revista Semana On Line, Victor Barone e com os representantes da Revista Badaró, Mylena Fraiha e Norberto Liberator, veículo produzido e de iniciativa dos acadêmicos e egressos do curso de Jornalismo da UFMS. realizada uma palestra com a jornalista, também egressa do curso de Jornalismo e repórter da Rede Globo Veruska Donato.

Na conversa, além de relembrar sua trajetória enquanto acadêmica de jornalismo da UFMS, Veruska comentou sobre as perspectivas do profissional na área de telejornalismo, especialmente com o advento da internet e das redes sociais no cotidiano. “Eu acho que a TV não vai desaparecer, vai ser mais um canal, ela vai perder a força. A tendência é fazer nichos. A linguagem com a internet mudou. Hoje está mais para o entretenimento do que para a educação”, ressaltou. Veruska Donato também explicou sobre como os novos meios colaboram para a construção e surgimento de pautas. “A rede social ajuda na elaboração de pautas. A informação vem de todos os lados na internet”. Ela reforçou que as empresas exigem que os profissionais tenham habilidades para desempenhar diversas funções. “Hoje, em todas as profissões vocês devem ter todas as habilidades. É importante vocês estarem prontos para todas as atividades, pauta, edição, reportagem”, complementou.

A Semajor também contou com 15 oficinas e vivências ministradas por egressos do curso de Jornalismo e profissionais da área com temas como jornalismo e direitos humanos, jornalismo em ONG ambiental, telejornalismo, história em quadrinhos, cobertura esportiva e abordagem midiática do feminicídio, além disso, foi criado, pelas acadêmicas do curso, o coletivo “Por um Jornalismo Mais Feminista”. Ao final do evento, acadêmico(as) e professores(as)  se juntaram para comemorar as três décadas de curso com o Show de Talentos 2019.

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